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As mina do rap chegam de assalto, e tomam seu espaço

27 de janeiro de 2018 Foto: Reprodução web

Garotas do projeto Rimas e Melodias

 

Se ninguém deu licença, elas meteram o pé na porta. Desde que surgiu em caixas de som improvisadas em Kingston e Nova Iorque, o rap entregou à humanidade uma profusão de poetas do novo milênio, MCs que retratam a realidade de injustiças do nosso mundo e dão voz aos historicamente silenciados. O porquê de serem, em esmagadora maioria, homens, nunca foi explicado, embora as pistas estejam em qualquer outro setor da sociedade. Pela igualdade de salários a representação política, a luta está só começando, mas na música uma batalha foi vencida.

No ano que passou, elas levantaram a voz. Você deverá desconfiar, por exemplo, da lista de melhores discos que ignorar ‘Eletrocardiograma’, da Flora Matos. O projeto Rimas e Melodias reuniu artistas de diferentes lugares e ressoou pelo Brasil em músicas como ‘Origens’ e ‘Manifesto’. Dois sinais que ratificam a independência delas e, mais do que isso, apontam para um horizonte de boas novas.

Tássia Reis

“Eu não gosto de pensar no rap feminino em si, e espero que esse seja o ano que as pessoas parem de nos colocar nesse subgrupo”, afirma Tássia Reis.  “Para mim é um orgulho representar as mulheres, claro, falar o que penso enquanto mulher negra, é uma honra. Ao mesmo tempo, porém, quando um cara fala ninguém relaciona o que ele pensa ao gênero, porque ele é o padrão. Nisso a gente já pode avançar, porque homem ou mulher que escuta minha música pode se identificar”.

A verdade é que elas rimam desde o início. Dina Di é considerada pioneira e fazia rap com o grupo Visão de Rua desde os anos 80 em Campinas (SP). A voz guerreira de Negra Li era marca registrada da Rapaziada da Zona Oeste nos anos 90 e 00.

Nos Estados Unidos, personagens como Erykah Badu e Lauryn Hill fizeram história nas últimas décadas, e hoje figuras como Nicki Minaj e Cardi B são carimbadas na Billboard.

Nicki Minaj

Reação no Brasil

Peculiar no Brasil é a determinação que elas têm de marcar território e reagir sem medo à violência. “Continuar a abrir esses espaços faz parte da nossa missão como artistas”, promete Drik Barbosa, “se eles não existiam como existem hoje, é porque estamos evoluindo”.

Tanto Drik como Tássia embarcaram no projeto Rimas e Melodias: sete mulheres que começaram a produzir conteúdo para internet e obtiveram tamanho sucesso que foram para os palcos. O projeto nasceu com a cantora Tatiana Bispo e a DJ Mayra Maldijan em 2015 e evoluiu desde então com mais Alt Niss, Karol de Souza e Stefanie.

Erikah Badu

Durante duas semanas em abril de 2017 elas trabalharam no disco que rendeu uma turnê no segundo semestre. Ainda há agenda de shows em 2018, mas a maioria delas tem planos de discos solo como prioridade.

“Não é o tipo de projeto que acaba”, garante Tássia, “as músicas estão aí, e sempre que nos reunirmos será Rimas e Melodias. Estou louca para ouvir os discos das meninas e renovar minha playlist”.

Ela também quer colocar coisa nova na rua, mas está feliz em conciliar com a repercussão positiva que conseguiu com seu disco ‘Outra Esfera’. Lançado no final de 2016, incluiu um poderoso remix de ‘Ouça-Me’, cuja destacada poesia sintetiza: “…eu tentei falar baixinho mas ninguém me ouviu / eu tentei com carinho e o sistema me agrediu / então eu grito! Elevo o meu agudo ao infinito! / Pra mim não tem dilema, se tá difícil, eu explico”.

Drik Barbosa, por sua vez, pretende colocar na rua seu disco de estreia, que ganhou apoio no edital da Natura Musical. “Deve sair esse ano, e já tem tema: vou falar sobre a herança. De várias formas – a herança que tenho de meus ancestrais, da música, enfatizando as mulheres que me inspiraram até esse momento da minha vida”, ela antecipa. “2017 foi um ano de muito trabalho para nós. Foram muitos lançamentos importantes, e principalmente de mulheres, não apenas na música, mas na poesia, na fotografia, no grafite, na dança. A gente plantou muito e acredito que a colheita vem pela frente em 18”.

Lauryn Hill

Quem você também vai ouvir em 2018 é o trio Abronca, do Rio de Janeiro, que tem uma história peculiar. Cinco anos atrás eram adolescentes e formavam o Pearls Negras, de abordagem pop e romântica no hit ‘Pensando em Você’. Agora o título do single ‘Chegando de Assalto’ é autoexplicativo – elas abraçaram o trap e representam o funk no Vidigal.

“Hoje a gente consegue exaltar o que estava escondido”, conta Slick, sobre a transição que elas viveram. “Crescemos muito liricamente, a gente era limitada e não conseguia mostrar nossa realidade”. “É nossa inspiração toda mulher que está lutando, que está ganhando o poder, mesmo a mulher na favela, que trabalha”, ela diz.

De contrato assinado com a Warner Music, elas esperam ter investimento para levar a voz a novos patamares, e prometem: “É nosso ano, pode anotar, quem não conhece vai conhecer Abronca”.

Não resta dúvida de que essa vontade de fazer acontecer é o que movimenta a arte e o hip hop, especialmente. Porque o rap nasceu com microfone na mão de quem nunca teve voz, e nesse sentido ele será sempre vanguarda. Se a força da mulher no rap brasileiro representa uma evolução de fato para a maioria feminina da população, é difícil dizer, e provavelmente não, diria o pessimismo de nossos tempos. Mas é bom demais ouvir a voz e inteligência delas. “Para mim, cada ano tem sido melhor do que o anterior”, diz Tássia Reis – “é um degrau de cada vez, e subir essa escada é massa demais”.

(Por Lucas Reginato/Agência PLANO)

Na Paraíba, também se sente a liga

 

Por aqui, a força do rap feminino já vem sendo sentida há alguma tempo, mas foi em 2016 que a cena local viu mais claramente esse poder, quando surgiu a Sinta liga crew. Formada por Kalyne Lima, Camila Rocha e Preta Langy, rappers e ativistas culturais, ao lado do DJ e produtor musical Guirraiz, da grafiteira Priscila Lima (Witch) e da dançarina Giordana Leite, a Crew joga nos nossos ouvidos músicas dançantes que reúnem estilos como rap, dancehall, reggae, reggaeton e pitadas de música brasileira.

Sinta a liga crew

Em novembro passado, o grupo lançou o EP ‘Campo Minado’, que traz músicas autorais com letras que propõem a reflexão sobre empoderamento feminino, representatividade e resistência. A música de trabalho, homônima do título do EP, aborda a questão delicada de estar em um campo minado no mundo do hip hop, que ao mesmo tempo prega a inclusão, mas é também excludente em relação ao universo feminino.

A composição evidencia a existência de um campo cheio de ‘minas’ para afirmar que as mulheres estão por todas as partes, presentes nos quatros elementos do hip hop, ‘riscando’ (DJ), ‘pintando’ (grafite e pixo), ‘girando’ (b-girls) e ‘rimando’ (mc’s), produzindo assim um quinto elemento, que é o conhecimento através da música e como a voz de guerrilha em um contexto urbano.

 

(Por José Carlos dos Anjos Wallach / Festar Muito)

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