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Monteiro teve também ‘transposição de gente’ para ver e ouvir Lula

20 de março de 2017 Foto: José Carlos dos Anjos Wallach / Festar

'Mar de gente' na praça central de Monteiro no ato de 'inauguração popular da transposição'

 

Estava tudo certo: Lula chegaria à comporta construída no leito do Rio Paraíba, em Monteiro, por volta das 13h, caminharia cerca de 200 metros até o local onde plantaria uma árvore e, em seguida, se molharia com as águas do Velho Chico, que já correm em solo paraibano. Seria um ritual simples e carregado de simbologia para reforçar sua condição de ‘pai da transposição’.

Mas, ao descer do carro, o ex-presidente da República e seus seguranças tiveram que enfrentar um turbilhão. Havia milhares de pessoas ali. Os gradis e o cordão humano feito para desenhar uma passagem de Lula até o rio foram anulados em segundos pelo povo ávido em tocá-lo ou vê-lo mais de perto.

Fotógrafos e cinegrafistas se posicionaram dentro d’água pelo menos uma hora antes, formando uma espécie de meia-lua de frente para o local onde estaria Lula. Seria a posição perfeita para as imagens. Mas o planejamento não deu certo, porque a área foi invadida pela multidão

Lula mal conseguiu se banhar: entrou no rio, agachou-se, juntou água nas mãos e lavou o rosto. Jogou água para o alto – “Só assim a companheira Dilma sentiria a água, porque ela não conseguiu chegar perto”, revelou o próprio Lula, um pouco mais tarde durante seu discurso em palco montado na praça principal da cidade.

Aquele momento, na minha percepção, representou a prova mais concreta de que Lula é um nome muito forte para a disputa da Presidência da República no ano que vem, apesar de todo bombardeio em torno do PT e dele próprio nas investigações da Operação Lava Jato, o que desde sempre foi contestado por ele, assim como novamente o fez falando ao povo na praça de Monteiro.

É claro que havia um número enorme de correligionários a lhe prestigiarem no Cariri, mas, ainda assim em quantidade infinitamente inferior à do povo que estava lá sem o compromisso da mobilização partidária. Lula atraiu o povo para si, mais uma vez.

Lula chegou de avião a Campina Grande, onde foi recebido pelo governador Ricardo Coutinho. A comitiva fez o percurso até Monteiro em dois ônibus.

Realmente emocionante

Saímos de João Pessoa às 4h30, ainda madrugada escura do domingo (19) para uma viagem de quatro horas numa van. Gente que se cotizou para pagar o transporte para ver a festa petista em Monteiro, que ficou conhecida como ‘inauguração popular da transposição’.

Chegamos por volta das 9h e já havia um bloqueio policial no portal da cidade, onde os motoristas, sobretudo de ônibus e outros veículos fretados, eram orientados a estacionar na área ao lado da BR-412, que liga a cidade à Praça do Meio do Mundo, na BR-230.

Havia alguns ônibus e carros. Parecia que a projeção dos organizadores do evento de atrair 50 mil pessoas ficaria distante. Mas foi a primeira impressão, era início da manhã. À medida que as horas passavam, o volume de carros, ônibus e vans aumentava. As pessoas tiveram de caminhar cerca de mil metros até o leito do rio Paraíba, ou quase 2 km até o centro de Monteiro. Presenciar a cidade se enchendo de gente foi emocionante.

“Monteiro teve o encontro do Galo da Madrugada com as Muriçocas do Miramar! #Gente!!!!”. A postagem do jornalista Jamarri Nogueira no Facebook dá a dimensão da ‘transposição de gente’ vista em Monteiro.

Transposição e transpiração

Com um dia particularmente quente, Lula saiu do leito do Rio Paraíba, passou por mais um turbilhão ao subir um barranco e seguiu em carro aberto até o centro da cidade. Descrevendo assim parece que a coisa foi fácil. Não foi.

Como que adivinhando o trajeto por onde passaria o petista, as pessoas corriam por dentro do mato para as margens do caminho. Ele sobre a caçamba de uma camionete e milhares de pessoas a pé seguiram até a Praça.

Suando em bicas, mas também molhado pelas águas do rio, Luiz Inácio Lula da Silva fez um trajeto de pouco mais de 1 km entre o canal da transposição e o palco na Praça, e o fez lentamente para que a povo o acompanhasse, debaixo de um sol causticante.

“Direito a água limpa”

Último dos oradores já no final da tarde, Lula fez um discurso em que a mensagem mais forte foi dirigida ao povo pobre do Nordeste e da área da seca, lembrando que conhece essas dificuldades e foi vítima delas antes de seguir para São Paulo. Também foi cheio de críticas diretas a lideranças conservadoras dentro da Paraíba e país a fora.

“Eu sei o que é colocar água barrenta no pote, esperar assentar, coar, quando assentava colocava noutro, depois noutro, e a barriguinha era só de esquistossomose, cheia de fezes de vaca, de cavalo, de cabrito, de burro… era aquela água que a gente bebia e foi assim que a minha mãe me criou. E eu sabia que o povo mais pobre do Nordeste tinha que ter direito a uma coisa elementar, já que o nosso corpo é 70% água, o povo precisava de água limpa para se tratar”.

Lula também atacou a tentativa do atual presidente Michel Temer, e de lideranças políticas no Planalto e no Congresso, de assumirem a paternidade do Projeto de Transposição de Águas do Rio São Francisco.

“Tenho muito orgulho de ter tido a coragem de iniciar esse projeto. E eles agora dizem que não tem paternidade. Não tem paternidade?! Se eles têm vergonha, nós não temos. Dilma e eu, Ricardo e muitos outros governadores e vocês temos orgulho de dizer: nós somos pai, mãe, irmão, tio e primo da transposição das águas do Rio São Francisco”.

Também condenou a reforma da Previdência como está sendo proposta e encaminhada e apontou como solução para o déficit no setor a criação de empregos e dobrar a arrecadação para o benefício.

Sobre as eleições de 2018, O ex-presidente disse que sabe que seus adversários farão o possível para que ele não seja candidato, mas garante que se for escolhido para isso entrará na disputa para vencer.

O primeiro

Quem abriu os discussos foi o Padre Djaci Brasileiro, uma das vozes mais famosas em prol da transposição.

“(…) em 2007, quando muitos não queria a transposição, eu entrava na contramão dessa gente e ia a Brasília carregando uma cruz de latas, símbolo do clamor do podo por água, sob o sol causticante, calor brabo da peste, lá esteva este padre, com esse mesmo chapéu, clamando: ‘Lula, 12 milhões de nordestinos querem beber água do Velho Chico”.

“A cara de pau”

A ex-presidenta Dilma Roussef disse que o Brasil foi “vítima de outra mentira há poucos dias” referindo-se à propaganda de que a transposição foi resolvida pelo atual governo em seis meses. Classificando os adversários de golpistas, Dilma disse que essa é mais uma tentativa de enganar e confundir o povo pobre.

“Esse país assistiu a mais uma mentira recentemente. Vejam vocês a cara de pau em dizerem que uma obra de transposição do tamanho dessa podia ser feita em seis meses. Esses que deram o golpe baseado numa mentira”.

 

Nada de muro

Em mensagem direta a políticos paraibanos que estiveram ao lado de Lula e depois de Dilma, mas ‘mudaram de preferência’, o governador Ricardo Coutinho, penúltimo a usar o microfone, disse que sempre foi decidido a ficar do lado da democracia e dos gestores que fizeram mais pelo Nordeste.

“Sou uma pessoa, graças a Deus, que aprendeu a ter lado. E não tenho medo, tenho coragem para enfrentar as coisas que a vida coloca diante de nós. E eu não titubiei um momento em poder estar ao lado da democracia e de quem fez e faz pelo nosso povo, e particularmente pelo povo nordestino”.

Mais oradores

Após o Padre Djaci Brasileiro, outros fizeram discursos, entre eles o senador Humberto Costa (PT-PE), Gervásio Maia Filho (presidente da Assmbleia Legislativa do Estado), deputado federal Luiz Couto (PT-PB), o secretário estadual João Azevedo (Recursos Hídricos) e dirigentes de entidades sociais e de trabalhadores, como o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra.

O palanque ficou lotado de políticos e jornalistas. Também foram a Monteiro na comitiva de Lula os senadores petistas Lindembergh Farias (PB) e Gleisi Hoffmann (PR), além de governadores de Estados como Rio Grande do Norte e Bahia. Muitos deputados federais e prefeitos também estiveram no ato público.

Os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Housseff foram homenageados com a comenda da Assembleia Legislativa da Paraíba, a Medalha Epitácio Pessoa.

As ausências

O ex-governador cearense e ex-ministro de Lula, Ciro Gomes, um dos maiores defensores e lutadores pela Transposição, não foi ao evento, embora sua presença fosse dada como certa. Também não estiveram o compositor Chico Buarque, um dos nomes mais esperados em Monteiro e anunciado como possível integrante da comitiva.

Mas estava lá o compositor paraibano Chico César, que cantou, interagiu com o público e recebeu um abraço de Lula.

No palco, antes do início do ato, o povo que ia se chegando na praça e os políticos foram recebidos com um show do artista Djinha de Monteiro, uma das vozes mais conhecidas na região.

A volta

Nossa van conseguiu sair do estacionamento e entrar na BR-412 por volta das 19h. Parecia andar palmo a palmo nos primeiros quilômetros após deixar a cidade. Antes, tivemos que caminhar de volta – da praça para o local onde estavam os ônibus e outros veículos. Uma multidão dividiu a rodovia com uma fila de carros. Chegamos a João Pessoa, pouco antes da meia-noite.

 

(José Carlos dos Anjos Wallach)

CATÁLOGO DE PROFISSIONAIS

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